7.2.08

"(...)

1) De onde essa agonia febre-fulgor que eu carrego mil vezes cada dia?
2) Onde o meu ser primeiro, minha mais íntima assonãncia, minha intocada palavra?
3) E por que é pesado caminhar, como se a perna não fosse para o passo, antes como se fosse para ficar sempre parado e apenas, apenas, e acima de tudo o olhar vigiando?
4) E por que não vejo através, mais além daquele que me fala, daquele que me toca, por que não te vejo, CORPO DE DEUS, LÍNGUA DE DEUS, MÃO ESBRASEADA DE DEUS dentro de mim, por que não te vejo?
5) E à noite, por que a noite me faz desejar o vôo, lá, mais além, em todos os lados, como se a carne fosse tenra, de pássaro, como se a asa fosse minha desde sempre?
6) E por que é preciso lutar CONTIGO, se ao mesmo tempo tenho fome de TI?
7) Para TE engolir escorregadio, conhecendo?
8) Para que fiques dentro de mim, a boca aberta me sugando?
9) Para que eu alimente e sofra a TUA FÚRIA, os TEUS HUMORES?
10) E se ficares dentro de mim, aquela que vem sempre não virá?
11) Ou se vier vem só pra mim e TU te afastas e ocupas outra carcassa?
12) E não é ausência ser assim como TU és, apenas luz, e luminoso e candente gritar a cada dia: guardai-vos da lascívia porque meu santuário é sagrado?
13) E por que é tão difícil ser justo e amar o outro?
14) Outra coisa, outra coisa: já não tomaste nota de todos os meus atos há milênios e me enganas segundo por segundo para que eu te agradeça pensando que sou livre, livre até para cuspir meu ouro?
(...)"

trecho de Qadós, do livro de mesmo nome da incrível Hilda Hilst.

3 comentários:

Anônimo disse...

Acho que vc está querendo voar.
Acho também que vai voar.

Marte disse...

Oi pessoa sensata! Obrigado pelo cometário!

Vou linkar.

Beijo.

Anônimo disse...

Genial. Pungente. Como não amar a Hilda?