7.2.08

"(...) Labareda. Vontade de ver tudo de novo, ver, tocar pela primeira vez. Não as primeiras carícias, nem as segundas, a primeira. Que grande maravilha. Depois a boca sobre o ombro desse tênue, esse pai-amante-filho pela primeira vez, esse revivescido meu, esse júbilo alongado sobre mim, esse que a GRANDE COISA TURVA não vai tocar porque eu estarei ali à sua frente, imensa, e vou dizer e digo: despacha-te coisa imunda, morte, vassoura negra de asas, esse nunca, esse não, esse tênue indelével, verdade vigília dentro de mim, esse inteiro vida no meu-corpo-dele. É sim, o amor do mundo inteiro se lavando no meu canto, depois vão tentar secar a fonte, vão dizer: Agda pergunta tudo o que os outros já perguntaram, finge ter a cabeça coroada e é apenas o espectro de sempre, vamos então repetir: who are you, that usurp'st this time of the night? Quando vier a noite não estarei discursando assim saxissonante, não, corpo-aroma sobre os linhos bordados, boca de açucena, bonito bonito, boca de açucena bacante borboleta e planta, Agda-cavalinha quando vier a noite, cavalinha com seu cavalin, como se o tempo... como se o grande corpo tempo fosse apenas um todo imóvel, irremediavelmente enrodilhado e imóvel.

(...) daqui do meu quarto eu ouvia o que se passava lá, o que ele dizia no quarto de Agda, dizia: assim como tu és, eu quero assim, não é nada com o corpo, que me importa o teu corpo? É o clarão que tens, o sortilégio, o ímpeto, nada em ti é penumbra, Viva Iluminada, existo porque tu me sonhaste palmo a palmo, existo porque a cada instante refazes o que não é triste em mim. "

trechos de Agda, do fantástico livro Qadós, da fabulosa Hilda Hilst.

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