20.8.07

Bandeira (branca)

Diz aí, Manuel


Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram os chapéus maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

-

Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
_ O que eu vejo é o beco.

in Estrela da manhã
-
(Mas, porém, contudo...)

O Martelo

As rodas rangem na curva dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.

in Lira dos cinquent'anos

5 comentários:

Beto disse...

Eu preciso comprar um livro do Bandeira. É uma vergonha não ter. Adoro esse poema, e você me fez relembrar isso. Valeu!

Beto disse...

Ah! Poema do Beco, me faz lembrar de "Inútil Paisagem" do Jobim/Vinícius.

carolina disse...

querido, eu tenho um "estrela da vida inteira", que é coletânea, repetido e te dou. tá dado, vem buscar *pisc

Beto disse...

Repetido? Me dá? Ebâ!!!!! Vou buscar. Que linda!

carolina disse...

:=)