30.3.08

Hotéis

Ca’d'oro

Tarde de sábado amarelada como foto antiga, e eu usava blusinha de renda guipir. O salão do bar vazio parecia arranjado apenas para nós, o piano suave, os garçons corretos e você a me cobrir de gentilezas, galanteios mortais e mimos doloridos.

Quando eu fui ao banheiro você foi junto e me esperou na porta e disse que na sua terra era assim, que as moças eram cuidadas e pronto. No balde de gelo a garrafa suava gotinhas menores do que as que nós chorávamos porque o momento era de encontro e despedida e tinha que ser assim para combinar com aquele hotel quase abandonado a saborear glórias antigas.

Então eu disse sim e no quarto você me queria dócil e me despiu e beijou muito. Eu não queria ver seu rosto franzido então continha todas as molas internas que queriam que eu te tocasse; você não deixava, só meu sim te interessava e bastava.

À meia-noite o encanto se acabou e, sim, eu esqueci um sapato quando saí correndo pelas escadas para nunca mais te ver. Depois comprei outro par.


Maksoud

Escuro e escondido naquele que foi o mais chique hotel da cidade, não era bar para se levar a namorada, jamais, podia ser um puteiro não estivesse em local tão sisudo e eu podia apostar que as outras que comiam os amendoins graúdos e chacoalhavam o gelo no copo ganhavam bem para portar toda a produção que eu não conseguia ver.

Eu gostava de brincar com você e você sabia porque eu era sempre honesta e te dizia que nunca seria tua, ai, que graça, nunca-nunquinha! Dizia e me fazia coquete e te falava de arte e outras finezas da vida, você gostava de me ouvir embora sempre enfiasse um comentário sacana no meio.

Você sabia que tuas safenas não aguentariam um beijo meu ou pelo menos tinha medo que, reclamava que eu era má e se deliciava quando eu ria de ti com deboche.

Gostava de ser mazinha ali, combinava, perversão, perversidade e uísque; os meus 20 anos e os teus 60, minha roupa ousada e teu mocassim, cada coisa em seu lugar.


Kubitschek

Aquela classe higiênica e algo cafona que toma conta dos lugares pretensamente chiques de Brasília dava o tom do bar. Deus sabe onde arrumavam camarões tão bons e eu largava o martini na beira da banheira, me vestia e descia só para ser a rainha entre homens famintos, políticos e empresários já saudosos daquelas que sempre menosprezavam em casa e que me olhavam com cobiça, me disputavam a atenção e o riso com piadas toscas e casos aborrecidos desfiados com arrogância.

Você era tímido mas me levou pela mão até o piano, pediu licença ao maître e tocou para mim como se aquela corja não estivesse por perto, o bigode escondia parte do teu sorriso tão charmoso e eu sabia que você seria doce, mais doce do que eu suportaria na minha diabetes sentimental, então dançamos um pouco e eu me sentei ao lado do idiota mais nojento e deixei que me tocasse a coxa. O desgosto era tão claro no seu rosto que eu exultei e disse senhores, vou dormir.

A cama era imensa.

Copa

Nos encontramos no Cipriani só que ninguém reparou na comida; a programação prometia uma noite daquelas. Deve mesmo ter sido, a julgar pela cara de todos na manhã seguinte, me lembro de bem pouca coisa.

O que sei é que lá pelas tantas eu vomitava no banheiro de uma "casa de shows" enquanto as putas reclamavam, voltei suja e cambaleante para o sofá vermelho de onde assistíamos ao rebolado de figuras emplumadas, meninas, meninos, travestis. A essa altura eu só pensava na minha suíte, as delicadezas do Copa, a cesta de frutas, os jarros de flor.

Cedo fugi da tua cama, nos reencontramos no café da manhã; o sol refletido na enorme piscina azul invadia o salão e justificava nossos abençoados óculos escuros, a nossa cara amarfanhada denunciava os excessos que se tornavam menores, quase limpos na companhia de todo aquele linho, a louça bonita, os ovos perfeitos.

Comandatuba

O jantar daquela noite seria servido na praia, algo entre reveillon e festa do Hawai; surpreendentemente a mulherada compareceu munida de scarpins, sandálias e sapatinhos. Reparei que enquanto as madames desnudavam os pés para chacoalhar a areia dos sapatos seus olhos acompanhavam cada movimento, o esforço para tirar os grãozinhos enfiados nos vãos dos dedos, as mãos percorrendo as solas; confortável no meu chinelinho eu era a voyeur do voyeur.

No dia seguinte eu gastava a preguiça bebericando no bar e assistindo a sinuca dos mauricinhos quando te vi chegar. Na hora chacoalhei o pé derrubando o tamanco que estalou no chão, quase lamentei não ter um cronômetro para medir as frações de segundos que teu olho ávido levaria para encontrar seu alvo, o pezinho a procurar o calçado, os dedos agitados buscando ajeitar-se.

Quando você finalmente percorreu o caminho do chão até o meu rosto te olhei confiante e esbocei um sorriso. Agora você sabia que eu sabia.

7 comentários:

Eduardo Janú disse...

perhaps i know

Anônimo disse...

hotéis, definitivamente, convidam à lascívia e ao voyerismo.

Anônimo disse...

Hello. This post is likeable, and your blog is very interesting, congratulations :-). I will add in my blogroll =). If possible gives a last there on my blog, it is about the Home Theater, I hope you enjoy. The address is http://home-theater-brasil.blogspot.com. A hug.

GUGA ALAYON disse...

Vida de comissária de bordo é difícil mermo!
ahahahaha
S_E_N_S_A_C_I_O_N_A_L!

GUGA ALAYON disse...

marcio, deve ser por isso que os Metéis sempre tentam trocar o 'M' por um 'H'disfarçado, não?

Anônimo disse...

Puta merda! Que delícia de post.

Anônimo disse...

eu só freqüento hotéis muito vagabas, daqueles que tem manchas no carpete velho e as janelas tem cortinas velhas e escondem a vista pra uma parede escura.
tá lindo esse seu post, beibe.