No céu nublado os primeiros raios de sol, a grama ainda molhada do sereno, descíamos a alameda dos pinheiros correndo e aspirando a vida no ar frio e perfumado, as pequenas gritando, excitadas para a caça ao tesouro: os ovos do dia que as galinhas caipiras esconderam no pomar.
O ovo novo, ainda quente, promete o sabor mais doce e a gema mais vermelha, antes de aquecê-los em manteiga fresca retribuímos em tributo singelo a dádiva concedida; devoramos sem pressa as jabuticabas que carregam a árvore temporã.
Depois o pão, o leite, os ovos e a pêra quase verde, corremos novamente a ver o bezerro que nasceu com a manhã, a porquinha prenha outra vez, a cadelinha assanhada a propor brinquedos, as crianças riem, felizes.
Aos poucos vou perdendo o medo e deixo-me envolver por aquela paisagem tão conhecida, o pequeno rio sob a ponte, as árvores que plantamos juntos, vovô meteria a canela na espreguiçadeira fora de lugar, vovó assaria biscoitos de nata, talvez de polvilho. Seria comoção extrema não fosse a delicadeza de tudo, as memórias embaçadas pela neblina, os pássaros ainda são os mesmos mas ontem os sapos não cantaram, nós estamos aqui e há algo de real no que já foi, já houve algo real, então, e o certo é que estamos aqui e as crianças riem.
Ela apertava-me os braços e quase arranhava, mordia-me de leve e lambia-me o rosto salgado, seu corpinho frágil de biscoito novo conhecia o toque da minha pele sob a água do mar agitado, sua alegria o meu bálsamo e por isso hoje estamos aqui, a minha prece validada no seu amor, comungamos juntas paraísos imaginários e outra vez o sítio é o porto onde me encontro, eu sou a que está agora e a que já esteve, no olhinho lindo dela um pouco do amanhã.
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4 comentários:
Cena linda!
Que tesão, menina... Sinestesia pura. Beijos.
Delicado, primoroso! Beijos.
biscoitinhos de nata da Vó Lena...
que lembrança doce...
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