4.12.07

banquete

"(...)
Eros não é um deus, não possui a plenitude, aparece sempre como uma força agregadora que encaminha o ser humano para o resgate de uma totalidade perdida, a que podemos chamar, seguindo a teoria de Georges Bataille, de continuidade. Um dos pilares de sua leitura poético-filosófica é a tensão entre duas noções ontológicas fundamentais: a descontinuidade e a continuidade do ser.
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Para o filósofo francês, somos seres descontínuos, pessoas que individualmente morrem numa aventura enigmática, marcada, contudo, pela nostalgia da continuidade perdida. E é esta nostalgia que comanda, na espécie humana, as três formas de erotismo: o erotismo dos corpos, o erotismo dos corações e o erotismo sagrado. O que as norteia é o desejo de substituir o inexorável isolamento do ser, a sua tão incômoda descontinuidade, por um sentimento ilusório e fugaz de continuidade, da busca de sua completude primordial. Tal completude, só atingida na morte, é experienciada, simbolicamente, no clímax erótico.
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Segundo Bataille, o erotismo abre-se à exuberância, ao excesso, à vivência dionisíaca. Está ligado à violência, à violação, à desordem, à morte, à transgressão, pois,

"o que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das formas constituídas. Digo: a dissolução dessas formas de vida social, regular, que fundam a ordem descontínua das individualidades definidas que nós somos.[5]"

As três formas de erotismo, colocando em questão a substituição da descontinuidade pela continuidade, carregam em si a essência do religioso no sentido da religação universal das tribos primitivas. Tal religação conduz o homem ao alcance do horizonte do sagrado arcaico - o sagrado primordial, como sacer, ou seja, o fecundo enlace entre a bendição e a maldição, o puro e o impuro, o sublime e o grotesco, Deus e o Diabo, sem as dicotomizações instituídas pela cultura judeu-cristã. No sagrado primordial, a realidade é intensa e ambígua: purifica e queima, cura e enfeitiça. A sexualidade é um meio de participar do sagrado, assim, o erotismo representa um componente natural deste sagrado indissolúvel. É por isso que Bataille afirma que todo erotismo é sagrado, visto que, ambas as experiências de intensidade – a erótica e a sagrada – rompem com o mundo ordenado, imperador da descontinuidade.
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O erotismo dos corpos seria uma tentativa de fusão – violação - com o parceiro numa busca incessante de continuidade. Neste passo, vale lembrar que o erotismo é uma atividade exclusivamente humana e a atividade sexual do homem só é erótica quando ultrapassa a animalidade, quando o homem transforma a atividade sexual em busca psicológica, em autoconhecimento, em questionamento do ser. Ou seja, é pelo trabalho, pela compreensão e consciência da morte, pela passagem da sexualidade livre à sexualidade envergonhada, da qual surge o erotismo, que o homem desvencilha-se da animalidade. Porém, Bataille concede amplo espaço à violência, que encaminha à perda da razão e conduz o homem ao resgate da animalidade. E neste ponto identifica a primeira como resgate da segunda.
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O erotismo dos corações seria os sentimentos dos amantes, prolongador da união dos corpos entre si. No entanto, tal sentimento pode tornar-se mais violento que os desejos dos corpos, pois introduz a desordem e a confusão, instaura uma continuidade ilusória entre os seres e nos remete ao sofrimento quando nos deparamos com a real impossibilidade desta continuidade. A paixão nos ludibria com promessas de que, se possuirmos o ser amado, a solidão e a descontinuidade se extinguirão e formaremos, com o outro um só coração. Desta forma, procuramos possuir com fúria o objeto de nosso desejo, a possibilidade da continuidade imersa nele e se porventura não alcançamos esta meta, preferimos a sua destruição. (...)"
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in Maximiliano Torres,
AS CONFIGURAÇÕES DE EROS NA NARRATIVA DE NÉLIDA PIÑON:
ASPECTOS DO EROTISMO N’A CASA DA PAIXÃO

13 comentários:

Anônimo disse...

nossa, eu acho já sabia disso tudo sem ter lido nada disso.
hahahahahahaha.

Liz / Falando de tudo! disse...

Valeu!!Teu blog é original, a gente sabe que temos que atualizar nosso blog para que ele permaneça bem visitado, né ?!
Eu moro na França, aqui ta frio agora então na falta do que fazer criei o meu da uma olhada ! E espero que eu possa voltar no teu, pra gente trocar comentario, ok ?
Falo de tudo, e vc pode me criticar mesmo viu? Faz um comentario!
www.dateladolar.blogspot.com

anna disse...

apesar de não fazer nenhum exercício, beber e fumar, dormir tarde e ser ansiosa, devoro diarimente compulsivamente palavras cruzadas prá exercitar o pouco de memória que resta no cérebro.

acredita que por lá eros é sim o deus do amor?

liquidificador disse...

acredito que esses deuses têm emoções humanas. daí você imagine todo o resto...

Anônimo disse...

Feliz Natal

Anônimo disse...

beijo beijo beijo beijo beijo queridalindasuper carol e feliz natal procê

tatiana reis disse...

flor..tomei suco de cajá em sua homenagem!
só me falta ir ao inferninho...até agora nenhuma bagaceira pra me acabar, porém, tenho levado essa viagem como um bom retiro de mim, retira de mim a secura brasiliense e as mágoas todas encardidas do ano que passa.
vou voltar querendo mais cajá, preta e leve.
aeeee
um beijo de mar procê moça, todas as suavezas e intensidades merecidas!

Lord Broken Pottery disse...

Essa coisa de um coração apenas me confunde, não me parece adeqüada. Amamos no outro o outro, é mais simples do que parece.
Beijo

Lord Broken Pottery disse...

Essa coisa de um coração apenas me confunde, não me parece adeqüada. Amamos no outro o outro, é mais simples do que parece.
Beijo

Anônimo disse...

Você não vai escrever mais? Estou com saudades!

Anônimo disse...

O Blog acabou, morreu, não tem mais. Pena, né?!

Anônimo disse...

Feliz Ano novo!!!!
Beijos
Many

Anônimo disse...

Sumida!