TÉCNICA, EMOÇÃO
Marcelo Montenegro
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Eu trabalho com teatro. Crio luz e trilha para espetáculos e em outras peças só opero a técnica, som e luz, juntos, playground completo. E também edito uns vídeos. E também escrevo. E embora para alguns possa soar estranho, são coisas extremamente próximas. Porque são trabalhos técnicos, mas não meramente técnicos. E esse é o ponto.
Tempo atrás li um texto do David Arrigucci Jr. no Estadão por ocasião do relançamento da obra do João Cabral de Melo Neto. Entre outras coisas ele disse algo que com o tempo passei a pensar sobre João Cabral – falaê Kim! Ao contrário de muitos amigos e/ou conhecidos, escritores ou não, não acho o autor de A escola das facas puramente frio e matemático. E sim um cara que, com consciência e domínio absurdos de linguagem, usa a técnica justamente para – e era mais ou menos isso que o Arrigucci dizia –chegar à emoção. A um “sentimento do mundo”. Obviamente não tô falando de sentimentalismos, facilitações, melodramas e afins.
Quando, numa peça do Cemitério de Automóveis, que é o grupo que trabalho e onde aprendi e aprendo a fazer tudo isso, o Marião – que cria luz e trilha fudidamente – me pede pra abaixar a luz de tal foco “na última frase da guitarra antes de entrar o vocal” ou entrar com a contraluz “no primeiro toque do baixo” é porque isso, realizado com precisão de movimento e ouvido musical, cria uma puta sensação - estética, claro, mas não só - em quem tá vendo. Algo que provavelmente a pessoa nem consegue definir racionalmente, mas intuir, sentir que alguma coisa exata e comovente aconteceu ali.
Por isso não gosto de editar em produtora. Primeiro pelo ambiente asséptico. Não pode fumar e tem que tomar cuidado pra não deixar o copo de café fora da bolacha. Segundo, e preponderante: é o cara que opera. Quando edito, eu quero mexer, voltar 800 vezes no mesmo corte, fumar um cigarro atrás do outro, deixar rodelas meladas de copo por cima na mesa de edição. E se tem música então é pior ainda. “Meu, volta a música. Olha só. Ta ouvindo o baixo? Eu quero cortar no baixo”. E o cara não saca. O que quero dizer é: meio frame a mais ou a menos, uma música ou uma luz que sai bruscamente quando a situação não pede isso, um cortezinho mal feito – em vídeo, teatro ou poema – pra mim fode tudo.
Então essa equalização entre o matemático e o espontâneo, técnica e emoção, precisão e intensidade, está no nervo daquilo que escolhi fazer, e, portanto, da minha própria vida. O Jean-Claude Carrière, roteirista lendário de filmes idem – que nem gosto tanto, mas isso pouco importa – tem um puta livro chamado A Linguagem Secreta do Cinema. Saca só um trecho:
“... captar o som à medida que se acompanha uma produção, enfiando o boom no meio das luzes sem projetar sombras nas paredes, conferir um agudo (mesmo ligeiro) para este ou aquele som, essa ou aquela voz, nada disso é irrelevante para a escrita (...) Na abordagem de cada técnica, mesmo as mais recentes do processo digital, existe um antigo segredo (...)
Um artesão rigoroso raramente embarca em idéias malucas. Permanece calmo e seguro do seu modo de atuar, mesmo quando longe de seu trabalho. Para nós, o verdadeiro perigo – e este surge com freqüência – estaria na crença de que a técnica é o suficiente, de que o virtuosismo pode suplantar as idéias.
Sem dúvida, o contrário é verdadeiro. Quanto mais velho fico, mais admiro artistas que ocultam sua mestria técnica, que cuidadosamente evitam efeitos e se abstêm de trechos rebuscados. De que eles sejam capazes de todo tipo de virtuosismo, eu não duvido. Mas gosto quando almejam uma outra coisa, um mistério, uma essência, uma intensificação da vida, uma qualidade menos evidente, mais rara”.
Lembro que tive o privilégio de trabalhar e conviver com o Fauzi Arap durante um tempo, quando ele dirigiu Keroauc, texto do brother Maurício Arruda Mendonça com o Mario Bortolotto em cena. Nos ensaios, o Fauzi dirigia com precisão mais que cirúrgica cada movimento do Marião. A peça tem uma puta partitura, do início ao fim. Só que aí ele chegava e dizia: “ótimo Mário, é isso mesmo. Agora dá só uma sujadinha nessa marca pra não parecer que é uma marca”.
Nunca esqueci essa frase. Sempre que escrevo, edito ou faço luz e som de alguma peça, penso nela. Um tipo de rigor e uso da técnica muito, muito fudido. Que muitos gostam de chamar, numa abordagem superficial (o pior é quando soa afetada e/ou pedante) de “falta de rigor”. Porque muitos, em arte, fazem questão exatamente do contrário: o que importa é escancarar a marca. "
(*) eu dei o meu exemplar no meio de uma bebedeira. ao menos é o que jura o novo proprietário.
3 comentários:
Oi Carolina. Passei aqui pruma visita e gostei muito do "quando o uso da técnica é incisivo porém discreto". É isso. Legal pra caramba a analogia com o Osman Lins e, sobretudo, com a cozinha(Raduan Nassar disse uma vez algo como nem a melhor literatura se compara ao cheiro do alho subindo da frigideira). Beijo.
As sujadinhas finais são fundamentais. Mesmo.
curtição recíproca, Marcelo. beijo.
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eu vivo cagando na saída. vou tentar me lembrar disso da próxima vez e sentir menos culpa. beijo, peri.
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