Enquanto a Kelly me pinta as unhas, ouço a conversa entre a futura patty e o moço que lhe escova os cabelos:
_ O banco vai estar lançando um novo produto. Agora à tarde eu vou estar indo pro treinamento, e à noite pro coquetel.
_ Ai, que tudo!
Fechei os olhos tentando evitar a cara de Senhor, me salve. Ai, que tudo, coquetel no banco. Daí fui pra feira, não com o chinelo de oncinha desta vez. Da outra vez o chinelo de oncinha me deixou na mão, ou melhor, no pé. Como não é havaiana, uma das tiras soltou-se. Ai, ai. Ai, ai. Juro que voltei para casa arrastando um pé, depois de tentar de todo jeito prender a maldita de volta. Pensava assim: se eu tivesse mesmo um problema na perna e andasse assim, não teria nada demais, coragem, só dois quarteirões. Foi tão humilhante. Tão terrível. Mas eu tinha acabado de fazer o pé, não ia andar descalça. Arrastei, pois, o chinelinho por dois longos quarteirões. Tenho certeza de que qualquer um se sairia melhor nessa situação, qualquer mulher teria mais presença de espírito para lidar com isso. Eu só tinha olhos para a minha vergonha.
Mas a feira é mesmo uma beleza. É menina pra cá, princesa pra lá, moça bonita não paga, e tudo sem compromisso, sem expectativa, nem esperam mesmo que você compre, gritar é que é o barato. Adoro a gritaria, os carrinhos se atropelando, as mulheres reclamando que o tomate tá feio, o tiozinho me olhando bem no olho para garantir que a mandioca vai ficar amarela e macia depois de cozida.
Desta vez o chinelinho não arrebentou. Mas a barra da calça estava desfiada, uns fios mergulharam naquela nojeira de caldo de frutas, de frango, de peixe e sei lá mais quê e besuntaram meu pé todo. Acho que feira também é yin e yang.
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