1.8.07

dois poemas, um magnífico, o outro um coitadinho que perdeu um verso. Vamos lá.

Poema em linha reta
Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

---//---

Eu sou o lixo que o lixeiro não levou,
O sofá quebrado que alguém jogou.
Sou o escarro na calçada, nódoa suja,
igual a milhões de manchas em milhões de ruas.

O rato é meu irmão, gêmea da barata eu sou,
Rastejamos em busca de restos que não dividimos,
Devoramos nossas crias em canibalismo primitivo.
(xi, esqueci este verso)

Meu corpo é um velho baú de abusos,
Trapo com que limpei o sangue das vítimas que matei
Minha boca é de blasfêmias, esconjuros nunca escusos
Minha vulva foi o pão de homens que não amei.

A morte é minha última e rósea esperança,
Trégua macia e perfeita p’ros meus pés pisoteados.
Quisera não ser o escorpião que resiste à bomba,

Poder oferecer descanso aos meus olhos já cansados,
Mas, ai, pergue-me a praga que a Bíblia canta:
Espera-me a vida eterna, inferno dos desgraçados!

2 comentários:

tatiana reis disse...

Esse foi o primeiro poema(poema em linha reta) que recitei na vida, ainda chorei no meio do caminho, é forte.
beijo moça.

carolina disse...

eu sempre me emociono quando leio este poema em voz alta. Passagem das horas também é pauleira, mas exige mais fôlego, né? Bala pra recitar também é Lisbon Revisited, minha carta na manga de todo sarau.
beijo, querida