30.6.07

Alvenaria

_ Não vai rolar. Nossa, não vai rolar.

A casinha simples na invasão que nossa amiga nos emprestara para uns dias em Salvador era na verdade um barraco na favela. De alvenaria, com dois cômodos: sala-quarto e cozinha-banheiro. Este último, uma área com um cano em cima, donde vinha água, outro em baixo, por onde ela saía direto para a rua. Nada de vaso, nada de pia.

Vínhamos, Beverly e eu, de noites em tocas de onça e postos de gasolina pela estrada, mas um barraco me parecia demais.

A família da Graça, cozinheira delicada que conhecêramos em Lençóis, mostrava-se bem feliz por receber-nos. Família enorme, filhos e netos se embaralhando. Receberam-nos com suco de cacau, delícia, apenas dois copos, um para mim, outro para Bev. Dois copos de suco e muitos olhos e bocas a interrogar-nos sobre tudo. Moravam fora da invasão, ao lado, em casa melhor mas também simples.

Ficamos. No primeiro dia um dos filhos faltou ao serviço, para nos servir de guia. No outro dia, outro faltou. E assim por quinze dias, enquanto nós adiávamos a partida. Brancas, Bev e eu nos virávamos nos banheiros de restaurantes e que tais, onde eles sempre eram mal vistos; o resto era deleite e lição.

Foram dias de vatapá, com óbvio e subsequente piriri da Bev, e de passeios à beira-mar. Aprendemos a passar em duas na roleta; conheci o pão puro e fresco mergulhado em café fraco, o pagode e o futebol de Muçurunga III – favela, que em Salvador chama invasão.

A maior surpresa foi sabê-los iguais a mim. Exatamente iguais e tão vários quanto os do meu grupo; aquela poderia ser a minha família, uma das crianças a minha sobrinha, o cunhado podia ser o meu. Amam, trabalham ou não, têm sonhos e frustrações, gostam disso e não daquilo, com uns simpatizo mais, com outros menos. A miséria limitando a ação, a mente não. Mas há outros casos, claro.

Saudade.

Um comentário:

Anônimo disse...

Curvo-me numa vênia.

A conclusão é digna de seus melhores pratos, saborosos e reconfortantes em sua familiaridade. Dias de Carol de pés em brasa, moradora de todo lugar. Heroína existencialista.

Beijos.