Criada para ser correta e gerir a própria família, a vida de solteira beirando os 50 já não lhe apresentava desafios nem as paixões lhe tentavam.
Foi levada às pressas ao pronto-socorro numa crise de tremores e febre, internada com infecção generalizada, beirou a morte, voltou.
A gangrena no pé esquerdo, cultivada cuidadosamente e longe dos olhos da família, não rendeu-lhe o passaporte esperado; antes, brindou-a com elemento inesperado: uma nova vida, com uma perna a menos.
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Não queria despertar a culpa daqueles que queria bem, buscava apenas um meio de partir delicadamente sem que buscassem em si as razões para o seu desgosto.
O uísque sem gelo e dois maços de cigarro foram seus companheiros na última noite; pela manhã calçou os tênis e partiu. No parque, escolheu a trilha que cortava o bosque, correu até sentir o ar faltando e a cabeça quente e então correu mais um pouco antes de jogar-se ao chão.
Seus conhecimentos de medicina eram risíveis, ao invés do pretendido infarto conseguiu apenas uma tarde calorenta na enfermaria da Santa Casa. Mais um fracasso a pontuar-lhe a existência.
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Partiu-lhe os lábios com a mão fechada, xingou-a, gritou. Querendo provocar-lhe dor ainda maior e a mais poderosa das culpas, cortou os pulsos enquanto choramingava juras de amor doentio.
Ignorância ou teatro, não se sabe. Conseguiu apenas dois curativos no lado superior dos pulsos; as veias do caminho in-out ficaram do lado debaixo, ilesas.
Ela? Não quis vê-lo outra vez.
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Cansado das brigas demasiadas para seus parcos 20 anos, decidiu por um fim ao tormento. Deu-lhe, entre lágrimas, o último beijo e pulou nos trilhos no metrô.
Na pressa de resolver tudo, o desespero a anular-lhe os sentidos, não notou o principal. Não havia nenhum trem, nem chegando, nem partindo.
Foi resgatado pelos funcionários da estação; ao invés das rodas, pesaram sobre si apenas as chacotas dos demais passageiros.
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