Minha caixa de panos e tules, os restos de maquiagem da minha tia e pronto, no quarto de porta fechada eu sou a princesa sofredora, a rainha má, a sereia, a mulher do padre.
A vida manipulada contra minha vontade, a mesa de jantar proibida enquanto não chegam os pêlos do sovaco, as chacotas dos colegas, a lição de matemática nas manhãs de sol, quero tudo de volta em troca da necessidade de ser bacana, de ter sucesso, fazer direito.
Às favas as belas perspectivas, volto a traçar figuras incertas na porta antes que venha a bronca, querida bronca, acolhedora bronca; o ser maior que eu a vigiar-me os atos, amparar-me o tombo, lavar-me a boca.
De novo as árvores do pomar divididas, a minha é o pé de amoras; as ameixeiras é que são boas de subir, mas as amoras são doces e mancham a mão e os pés de roxo, fazem desenhos na calçada ao redor da casa. É o sítio do Embu e há pedras de mica no riacho raso que atravessamos, estamos no Reino das Águas Claras a ver castelos submersos, besouros falantes. Tio João nos leva em excursão ao bosque da outra margem, temos medo das aranhas que adivinhamos nas teias e das cobras que apenas supomos à espreita. Vou na frente, tio João com as mãos sob o inútil sutiã do meu biquini, eu não conto a ninguém mas sei que ele não devia. Os adultos são assim, indevidos, criando regras demasiadas; eu sou livre, meus medos e meus desejos por papos-de-anjo e tiaras coloridas a suplantar qualquer aspiração mais dura.
Criança posso congelar-me junto ao muro sem obrigação de ser forte, a fronha bordada de estrelinhas me espera para as lágrimas da humilhação e eu sei que criança sofre e é assim e pronto, nada a questionar, nada a superar, domingo almoçaremos na vovó.
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6 comentários:
esse lance está tão doido que o pessoal ficou até com medo de comentar.
rs acho que tá é chato mesmo, dei uma editada, acho que ficou melhor.
Sensacional!... Deveria estender, e virar um conto. Pense com carinho...
querido, brigada. vou aqui treinando, mas acho que ainda não tenho fôlego para textos mais longos. como ainda sou criança, tenho muito tempo pra praticar. né?
Lembra da taturana no meu cabelo depois de uma tarde na amoreira? Eca... A Tinês tirou com um peteleco, arremessando-a pela janela da Brasília vermelha do meu pai. Eca...
É por essas e outras lembranças que eu te amo.
hahaha Su, não lembro dessa, não. mas lembro de tantas outras coisas que acho que esse tema do embu ainda vai render. Você é meu amor. Beijo.
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