7.5.07

velharias

Achei um textinho meu já antigo, sei lá de quando, gostei, resolvi mostrar proceis:

Velho

O velho escondia sua barriga atrás da mesa e do papel de dono de loja enquanto se derretia libidinoso diante da funcionária e emporcalhava o ar com cantadas cheirando a becos de Olinda no carnaval.
Causava pena a cicatriz de duas pontes de safena que ele exibia enquanto afirmava estar "ótimo" quando todos percebiam em seu olhar, em seu andar rebolado, sua mendicância incessante, suas mentiras e verdades arrogantes, o peludo monstro do bolor.
O ouro no anel, no relógio, no fecho da carteira rota, na remela do olho, era não um disfarce mas uma fantasia, em que ele se via garoto e senhor de todas as ilusões apagadas pelo bafo quente do destino que ele mesmo traçou enquanto imaginava rabiscar rascunhos de óperas italianas e dramas shakespearianos.
Os poucos amigos que o visitam nas tardes amareladas trazem pouco mais que doenças e restos de sonhos iguais aos que ele rumina enquanto diz irritado à secretária que é proibido namorar ao telefone.
(Ela desliga com dó, não do namorado, que encontrará mais tarde, mas do que já foi um Homem, hoje um embrulho de camisa cara e sapatos mal engraxados que já pisaram as pedras da praia de Nice e logo se encharcarão ao atravessar a enxurrada que não tem vazão nos bueiros entupidos da avenida Paulista.)
Seu ódio pelo salão vazio de clientes mas cheio de quadros medíocres que ele transforma em obras de arte num delírio manso o leva a conspurcar a imagem da doce esposa, que admira envergonhada o viço e a liberdade das atendentes, quando tenta conquistar a funcionária à custa de histórias deprimentes sobre casamentos que se constroem sobre tênues teias de aranha.
Sua casa é linda em seus esgarçados tapetes persas, belas colunas rachadas e enegrecidas, cristais empoeirados nos armários que nem se recordam mais do excitante ruído de dezenas de vozes embriagadas e bandas de free-jazz soando em meio aos canapés.
Seu carro é possante e ele o dirige sem rumo chegando sempre ao sítio em Ibiúna em que o caseiro o recebe com honras de rei embora lamentando a cerca que caiu de podre, ou ao bar daquele hotel em que o garçom sorri ante a gorjeta gorda - Boa noite, Senhor!
Mas hoje suas mãos de dedos curtos se afligem um pouco mais, veja, sou safenado mas estou ótimo, sou forte, te pago um uísque, que tal, conheço um piano-bar daqui, ó!

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